Estava muito confusa. Tudo parecia ter acontecido num passado muito longínquo. Ou talvez não. Lembra-se que na noite anterior, quando se fora deitar, tudo estava normal. Tudo tinha cor. Tudo tinha vida. A sua colcha verde (agora branca), as suas cortinas amarelas e os seus naprons. A sua cómoda lilás e por cima da sua cama estava pendurado na parede, um quadro com um belo arco-íris. Tudo estava neste momento melancólico e com um ar que remetia à solidão.
Mas então, o que se tinha passado? Estava na Terra-de-Onde-as-Cores-Tinham-Desertado e não sabia como. Talvez estivesse a sonhar. Ou talvez tivesse sido raptada e levada para um outro mundo. Um mundo triste e monótono. Começou a chorar. As suas lágrimas continuavam transparentes. Límpidas e suaves. "Pelo menos isto não mudou", pensou ela.
De repente, sentiu-se a sufocar naquele quarto. Um cubo branco, sem cor, sem vida. Saiu do quarto descalça e desceu as escadas pulando de dois em dois degraus. Queria sair dali, queria ar fresco. Queria acordar daquele pesadelo. Finalmente saiu. Atravessou a porta em direcção ao jardim correndo, não avistando a enorme quantidade de vidros que se encontrava no chão. Sentiu dor. Parou quando finalmente encontrou a textura da relva acinzentada. Olhou para o céu e vendo o negrume existente, baixou a cabeça, com grande exasperação até que viu os seus pés. Vermelho. Uma grande quantidade de um vermelho vivo rodeava os seus pés. Vermelho. A sua cor preferida.
A felicidade que a assolou foi tanta que não pensou em mais nada. Agarrou em vários estilhaços de vidro e levou-os consigo.
Entrou no quarto e sentou-se na cama. Lentamente, foi cortando todas as partes do seu corpo e o sangue ia jorrando qual nascente de água limpa.
Tudo ia ficando em tons de vermelho.
Terminou quando se sentou exausta. Deitou o seu corpo, completamente exague e adormeceu. O seu último pensamento foi "Morrerei feliz porque preenchi a minha vida com cor. Vermelho, a cor do amor, da paixão e da vida".
E socumbiu ao desejo da morte.
ZulmirA'FerreirA



